domingo, 27 de abril de 2014

Em que caixa está?

Não saber o que fazer, quem procurar, qual decisão tomar, para mim a dúvida é a maior angústia que uma pessoa pode sentir. Consome, irrita, entristece, é como se apagassem as luzes e faltasse a sinalização de emergência. Ouvi essa semana que o ser humano muda e esquece de avisar ao outro que mudou. Ou porque mudou. Não nascemos com manual de instruções e muito menos com o 0800 da assistência técnica. Pior que isso são as situações mudarem, o contexto e não necessariamente as pessoas, e sem que pudéssemos perceber. É pegar o bonde andando sem saber de onde ele vem e para onde vai. É difícil entender a mudança, reagir à mudança. Mudar de casa, de cidade ou país parece ser bem mais simples. Saberá em qual caixa estará cada objeto, terá um bairro e novos vizinhos para descobrir, e com certeza um guia de páginas amarelas ou um bom GPS te mostrará onde encontrar cada item necessário para sobreviver. Mas quando a mudança é situacional meu caro, quando ela se impõe sem que você tenha a opção de aceitar, quando ela aparece e você não é capaz de saber onde falhou, se é que alguém tem a responsabilidade sobre isso, porque pode ser sim uma peça do destino...aí resta seguir o coração (ou a emoção). Este que é tão controverso, indeciso, conflituoso. Você sente uma coisa que ninguém vê o outro não enxerga ou vê totalmente diferente. O que fazer? Pra onde correr? Em qual caixa está a resposta? Cadê a sinalização no mapa na tela do GPS? Esperamos a adaptação natural a mudança ou colocamos nosso eu como agente dela? Seguir o coração ou a razão? Os clichês "ser feliz ou ter razão" "cada escolha uma renúncia" são muito restritivos. Uma coisa ou outra. E a felicidade não é restritiva, a felicidade é associativa.
Ou ao menos deveria ser.
Só nos resta encontrar em qual caixa da última mudança ela foi guardada.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Livro 2/12. Indicaçao de leitura:

Terminei a segunda leitura do ano. Não vou me culpar nem justificar meu atraso (era para estar na quarta leitura, considerando a leitura de um livro por mês), sinto que estou em atraso com a minha vida, então está tudo certo já que temos todo o tempo do mundo.
O SAL DA VIDA escrito pela antropóloga Françoise Héritier é um exercício que deveria ser praticado diariamente por todos nós, antes de dormir ou ao acordar, uma lista das pequenas ou simples coisas que tornam nossa vida interessante, que nos realiza, que tempera nossa vida. Eu que sempre pensei que o bom da vida era doce, acabo de concordar que o bom mesmo é o Sal, o tempero, e quem sabe até o limão e a pimenta, necessários para nossa formação.
Antes de divulgar o que representa o sal da minha vida (atividade proposta ao final do livro) quero compartilhar um trecho dessa jóia.
"A seleção das recordações é feita sem intervenção da vontade, e a psicanálise conhece bem as razões da necessidade de se esquecer, mesmo que nem todas as lembranças esquecidas resultem do inconsciente. O acontecimento se vai (...) mas o essencial fica. (...) Recordações demais nos deixariam paralisados. Restam os protótipos daquilo que, de fato, nos afetou no grande registro das emoções possíveis."

E o que representa para mim o SAL DA VIDA, até o momento, também daria um livro, mas em resumo é o que compartilho aqui.

Cheiro de terra molhada, gargalhar até cairem lágrimas, bater bolo a mão, dourar cebola na manteiga, ver o resultado após a organização de um armário, rolar na grama, sentir o mar molhar o corpo e o sol aquecer aos poucos, banho de cachoeira, ganhar abraços sinceros e apertados, ser reconhecida, reciprocidade, ter senso comum e perceber que outras pessoas também tem, cumprimentar ou ser cumprimentado por um estranho, ver ou fazer uma gentileza, ouvir histórias da sua vida, rever fotos antigas, ouvir que você fez falta, esperar pelo carteiro, escolher a decoração da casa (mesmo no imaginário), andar de bicicleta, caminhar sem destino definido, dormir uma noite inteira, observar os pratos nos restaurantes, subir em árvore, ganhar festa surpresa, ganhar presente fora de datas específicas, perder o ar em Machu Picchu, ser dona de uma biblioteca, ter a família reunida em volta da mesa, rir de si mesmo por não conseguir assoviar, saber a letra daquela música e achar que sabe cantar aquela outra, dançar sozinha em casa, ir atrás do trio elétrico, observar a estrada por horas seguidas, rever amigos antigos, fazer novos amigos, ser útil para alguém, poder concluir o Caminho de Santiago, comer camarão, ouvir sotaques, ajudar um irmão, fazer sacolé ou chup chup, tomar banho de chuva, poder comprar aquela roupa que foi feita para você, descobrir a cura de um problema de saúde, ensinar alguma coisa a alguém, ver uma criança imitando e rindo de seus sons labiais, correr na areia, se sentir linda ao acordar, achar dinheiro esquecido no bolso, fazer mil planos, viajar mentalmente, ter fé, concluir a leitura de um livro, se sentir amada e única mesmo com todos os defeitos, planejar a próxima viagem, viajar, planejar a próxima viagem, viajar, planejar a próxima viagem e viajar! Ter gosto pelo sal da vida, pela vida e por viver!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

As verdades de quando crescemos...

Quando a gente cresce descobre que muita historinha da infância era na verdade uma grande ilusão - para não dizer uma grande mentira.
 
A começar pelos contos infantis, Cinderela, Patinho Feio, Chapeuzinho Vermelho...todos eles foram contados com distorções, carregados de entrelinhas psicológicas.
 
Dos clássicos literários aos desenhos animados, tudo, exatamente tudo, tem um final feliz, o bem sempre vence e em toda e qualquer situação de risco vai aparecer alguém com super poderes para te salvar.
 
Tudo bem diferente da vida real, em que é preciso soar a camisa, passar a duras penas, enfrentar perrengues, dedicar anos da vida a alguma causa, para só depois, e às vezes beeeeeem depois, colher os frutos. O final feliz não chega em quarenta e cinco minutos ou quinze páginas, leva-se anos e para muitos, leva-se uma vida inteira.
 
O bem sempre vence? só se for fora do Brasil. Amo meu país, de gente afetuosa, sorriso largo, povo batalhador, infinitas belezas naturais, não tenho dúvidas de que Deus é Brasileiro. Mas a impunidade também é brasileira e começa vindo lá do castelo da rainha, onde tudo pode. A impunidade atravessa o páis de ponta a ponta e não há quem chegue no final para salvar, nem de avião, nem de moto, nem numa super máquina ou num objeto voador não identificado. Ainda não descobrimos quem poderá nos salvar!
 
Mas o ápice da ilusão infantil vem das tirinhas, do famoso álbum de figurinhas Amar É! Esse passou por gerações e gerações, (minha mãe tinha o álbum) que enfatizavam o lado bom do amor, o lado cor-de-rosa, o lado fácil, o lado divertido, o lado generoso.
 
Levanto um questionamento, não é fácil amar em nenhuma cisrcunstância, pois se alguém ama e não é correspondido, dói, fere, machuca, gera ansiedade, nos consumimos, perdemos noites de sono e ganhamos problemas no estômago. Se ama e é correspondido, geralmente isso implica em se relacionar, e relacionamento não é nada fácil, e não falo do amor entre homem e mulher, falo de maneira em geral.
 
Se relacionar com nossos pais é difícil, e não há dúvidas de que existe amor ali. Crescemos e não aceitamos mais as verdades absolutas impostas por eles, não queremos mais carregar o casaquinho porque vai esfriar, nos achamos donos do próprio nariz até que na primeira dificuldade voltamos correndo pedindo ajuda.
 
Para os pais também não deve ser tarefa fácil, ouvir um eu não gosto mais de você (tantas vezes ditos da boca pra fora), ver que os filhos cresceram e agora são do mundo, tem seus próprios valores, vontades, desejos. Vê-los criticando alguma fala ou ação de seus pais. Não obedecendo as ordens de ir cedo para cama, sair da frente do computador, não esquecer a toalha molhada em cima de cama. Meu Deus, não deve ser nada fácil você passar anos educando um filho, moldando, e de repente ver que nada foi da forma como planejou, escolheram outra carreira pra vida deles, são independentes. Isso nos casos bons, prefiro nem falar aqui dos casos que envolvem filhos que abandonam seus pais na idade em que mais precisam, usurpando deles, matando por nada, ou pelo que acham que é muito.
 
E os professores? Aqueles da infância que todo mundo um dia se declarou a ele ou a ela, uma bronca dada ao aluno, mesmo com total razão do professor, arruinava nosso dia. E com os professores tínhamos relacionamentos de um ano letivo, coisa rápida, com direiro a duas férias e alguns feriados, e ainda assim, não era fácil.
 
Com os amigos? Je-sus, Ma-ria, Jo-sé! Socorro! Amamos nossos amigos de maneira que podemos perceber a kilometros de distância quando eles estão precisando de nós. E quantas vezes ficamos com raiva deles? Fulano não me escuta, pede conselho mas não escuta. Alá ciclano cometendo o mesmo erro, não aprende nunca! Eu te avisei que não ia dar certo, mas... mas amigos são para isso também, repetir milhares de vezes aquele conselho, aquela dica, pra anos lá na frente um dizer pro outro, é, você estava certo...
Houve um tempo em que mandava correspondências pros amigos via correios, demorava dias escrevendo em papel de carta, colava adesivos, canetas com cheiros diversos, mal cabia nos envelopes, despendia tempo com inúmeras idas às papelarias e dinheiro da curta mesada que ganhávamos. Hoje em dia não existe mais isso, temos N programas de mensagens instantâneas e ainda assim ficamos bravos quando não temos as respostas na hora, e olha que essas mensagens nem demandam tanto cuidado como as canetas coloridas, adesivos e papéis especiais, mas ainda assim não amamos menos nossos amigos por eles não terem mais tempo de responder na hora em que chamamos.
 
E nos relacionamentos entre casais, aí sim fomos firmemente enganados pelas tirinhas, pelas músicas (românticas de antigamente), pelos finais felizes dos filmes, pelas promessas de amor eterno.
 
Amar é muito mais que querer ficar juntinho para sempre, amar é encarar a rotina e saber extrair o sumo do suco, mesmo quando for de um limão azedo,
 
Amar é jogar as cartas na mesa, acreditando que vai ganhar a partida, sem nem imaginar qual a carta na manga do companheiro,
 
Amar é saber ouvir em silêncio (julgo tarefa impossível), saber falar no momento certo (tarefa mais impossível ainda),
 
Amar é ceder muitas vezes contrariando todo o estereótipo criado para um relacionamento perfeito,
 
Amar é pedir desculpas quando você nem sabe porque está pedindo só para dar por encerrado um assunto e amenizar a inquietação de um dia, (penso às vezes que por isso, amar é ser bobo),
 
Amar é enfrentar a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a alegria e a tristeza, mesmo quando algum desses fatores está relacionado única e somente ao relacionamento,
 
Amar é além de enfrentar tudo isso acima, o sapato jogado na sala, a toalha molhada na cama, a louça deixada na pia, o pote vazio na geladeira, o cabelo que caiu ao chão,
 
Amar é acompanhar ao supermercado, à farmácia, aos bares e festas, aos melhres restaurantes mas tambèm à feira livre,
 
Amar é carregar quando o salto machuca, mas também dividir o fardo quando ele pesar,
 
Amar é entender o pensamento, sentimento, forma de agir e reagir do outro, mesmo sem concordar,
 
Amar é ter reciprocidade, companheirismo, generosidade, cuidado,
 
Amar é não desistir,
 
Amar é um exercício diário,
 
Amar não é fácil.
 
Amar é para os fortes, mas é principalmente para os dispostos.